"O cliente nunca tem razão"




E então eu digo à cliente que ... E ela diz peremptoriamente "não". Diz "alhos" sim, mas "bugalhos" (que foi o que eu disse) não. Sorri, repete que não. E eu penso - sim, tenho razão. 

Diz o Mário que "Nesta profissão dizemos que o cliente nunca tem razão." Na realidade, nunca tinha ouvido essa piada entre psicólogos. E hoje, a cliente repetia não e eu continuava (continuo) convicta de que sim. Portanto o Mário tem razão. Mas não tem. Mau... estarei a fazer do bom e do vilão ao mesmo tempo? Não. Ok, se calhar chega de sins e nãos... não? 

Bem, porque é que afinal o cliente tem razão? Porque os psicólogos ouvem mais do que as palavras. A cliente diz que eu não tenho razão, e eu oiço a cliente a dizer - eu não posso sentir isso que me estás a dizer, não posso ir tão longe no meu passado, não posso sentir a fragilidade que me apontas, preciso manter esta ideia que criei de mim de que sempre fui uma pessoa forte até me acontecer "alhos", portanto "alhos" sim, mas "bugalhos" não. 

Porque oiço isto calo-me, não insisto, deixo para depois. Um depois que na realidade não tenho a certeza se virá. Guardo em mim a fragilidade que a cliente não pode suportar, à espera de um outro tempo. À espera, ou seja, com esperança, que a terapia e o tempo permitam criar forças para suportar as fraquezas, permitam dizer pelo menos um talvez que deixe a porta aberta para pensar outra coisa, sentir diferente. 

Às vezes enganamo-nos, e os clientes dizem-nos. Mas habitualmente, os nãos peremptórios confirmam o Mário. 

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