Meninas, meninos e Happy Meal



Estalou a polémica. De um lado, a defesa de igualdade de direitos, da não discriminação, da liberdade de se ser o que se é (principalmente quando o que se é não encaixa na dicotomia vigente). Não queremos meter as crianças nos moldes habituais, forçá-las a encaixar em estereótipos, não queremos que se sintam mal por sentirem que a sociedade não as entende ou às suas escolhas e preferências. Por isso... não queremos brinquedos de menino e brinquedos de menina. Do outro lado quem acha que isso são preciosismos exagerados, que as crianças escolhem naturalmente os brinquedos de menino e de menina, e que se continuamos por aí fora temos de abolir as secções de roupa de homem e de mulher.

Sou absolutamente a favor do não preconceito, da liberdade e principalmente da verdade interna. Como psicóloga é para isso que trabalho - para que cada um conheça, aceite, ame e viva livremente a sua verdade interna. Nem consigo conceber como a psicologia poderá ter outro objectivo (excepções feitas aos loucos cuja "verdade" interna lhes diz para matarem alguém ou algo do género). E uma das coisas que nos define, uma das mais basilares, é o nosso género. Como em tudo o que é complexo, os seres humanos não existem em definições puras - há feminino no masculino, e masculino no feminino. As partes do símbolo do yin e yang também se entrelaçam e contêm mutuamente. Mas definem-se, não se misturam ou confundem.

O feminismo veio trazer ao mundo moderno uma nova liberdade, para mulheres e homens. Agora podemos todos fazer tudo - podemos ser dominantes e submissos, cuidadores e impulsionadores, emotivos e racionais, independentes e dependentes, românticos e pragmáticos. E não deixamos de ser homem / mulher por isso. E as crianças podem brincar com qualquer brinquedo naturalmente sem isso ser prenúncio de nada. Óptimo.

O meu receio nestas discussões sobre valores, ideais e políticas é que nos deixemos levar de tal forma que nos esqueçamos do que é ser-se humano. 

Tiremos tudo o que define culturalmente um rapaz / homem de uma rapariga / mulher. Tiremos o aspecto exterior, a roupa e os cabelos diferentes, tiremos assuntos típicos, as formas de conversar, tiremos os grupos de meninas e de meninos nos recreios, tiremos as pistolas aos meninos e as bonecas às meninas, tiremos-lhes os modelos a seguir, as mães e os pais e mais os avós, tiremos as imagens na arte, na publicidade, tiremos o cinema e a literatura, os contos infantis... Tiremos tudo, mesmo tudo. O que fica depois?

A biologia? O ser humano é por definição um ser cultural, não apenas biológico. E o ser psicológico que somos contém em si a sua biologia, a cultura em que cresce e toda a experiência relacional dos afectos, dos modelos de adultos, e do mundo da fantasia. Se tirarmos a cultura, haverá biologia, mas não haverá humanidade. Se tirarmos a fantasia e o símbolo, criamos gente que poderá apenas seguir o que existe, que pensará apenas no concreto da realidade, que não terá qualquer força criativa. A Cinderela e os Três Porquinhos são símbolos potentes e por isso persistem. A lingerie feminina e os perfumes para homem, de uma forma diferente, também. 

Chamar princesas às meninas, fazer-lhes tranças e dizer que são lindas, brincar às lutas com os rapazes, não nos importarmos muito com as calças rasgadas e dizermos que são lindos, nada disto é a favor da discriminação negativa. Fazer comentários sarcásticos quando o menino brinca com a boneca ou enfiar vestidos à força nas meninas que querem calções, isso é quebrar a verdade dessas crianças. Isso, de forma continuada, persistente, vindo dos adultos mais próximos, é o que vai criar a necessidade de separar o que está dentro e o que se mostra para fora - nas questões de género, de orientação sexual e noutras. 

Sim, será bom perguntar às crianças que vão ao McDonald's se querem o Little Pony ou o Transformer em vez de perguntar se são meninos ou meninas. Sim, é bom perceber que as opções de resposta diferentes às perguntas dos jogos nas caixas de Happy Meal são ao mesmo tempo produto e produtores de estereótipos que não fazem bem a ninguém. Mas não nos esqueçamos das diferenças saudáveis. As que fazem de cada um de nós um eu diferente dos outros. Lindo. Obviamente. A diversidade será sempre uma riqueza.

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