O adolescente barulhento

foto do site http://www.michaelswerdloff.com/boyhood-an-inside-look/

O adolescente no café fala alto. Dá show. Sente-se uma tensãozinha entre os três rapazes sentados à mesa na esplanada, que se riem juntos, mas que também se batem na brincadeira, perto da fronteira da dor física e narcísica. Um dos rapazes pergunta-me educadamente se pode tirar uma cadeira e senta-se junto aos outros. A rapariga com o brinco no nariz e a maquilhagem nos olhos intervém na conversa com a maturidade que falta aos rapazes. Eles baixam o tom, segredam, ela pergunta o que foi, ele reclama "Estás a meter-te na conversa!", ela responde "Estamos todos aqui a conversar, a conversa é de todos, não é só de alguns." O adolescente gaba-se de como gamou um maço de tabaco a alguém. Ela "Estás a contar isto aqui e toda a gente a ouvir?" A velhinha na outra mesa olha-os em silêncio com um ar inquisidor. Ele continua a gabar-se, como ainda desafiou o roubado a revistá-lo e como a vítima lhe procurou os bolsos mas não teve a coragem de o confrontar com o interior da bolsa onde guardava o maço roubado. Imagino eu que talvez antevisse um roubo duplo, quando o delinco-adolescente não o deixasse ficar com o que era dele, pela segunda vez. A conversa dos roubos tinha começado pela indignação sobre alguém que roubou alguém e no dia seguinte foi cumprimentá-lo como se fossem amigos. O código de honra, na esplanada deste café, ao lado da escola, é outro. O homem do café, ao ouvir palavrões, deita alto para o ar "Começamos mal o ano". O adolescente barulhento reage para os amigos "Eu disse palavrões? Não disse..." Tinha dito. Os outros também. Mas os palavrões desaparecem da esplanada a partir daqui.  A professora que almoça à pressa, liga aos colegas a ver onde foram colocados e que horário têm, totalmente alheada da conversa barulhenta a três metros de si.  O adolescente de voz alta continua - no mesmo tom, fala agora de si. "Eu era daqueles miúdos gordinhos, sofri de bullying." Diz a palavra bullying como se gozasse consigo próprio. Os outros riem, ele também. "Ao menos nunca mais me fizeram bullying." 

Sinto na velhinha a condenação, a atribuição da classe de maus rapazes, ali, lá fora, aqueles que não prestam e de quem queremos distância.

Sinto na professora os anos de habituação, habituação aos adolescentes barulhentos, às incertezas de cada novo ano lectivo, a procura de contacto com os seus, "Se combinares almoço com a Francisca, liga-me que eu organizo-me e também vou.", a vida corrida "a comer uma bucha, literalmente" enquanto trinca a baguete de pasta de atum no meio das conversas ao telefone.

Sinto no homem do café o limite saudável, recebe os adolescentes barulhentos, tolera as conversas, impõe a regra da convivência social, sem grandes conversas, fruto de trabalho anterior com certeza. 

Sinto no adolescente barulhento o desafio a todos de se mostrar assim, sem ser possível rodeá-lo, na cara de toda a gente, como quem diz quem não gosta azar. Sinto a demonstração de força para não se sentir fraco e sinto a força de se mostrar na fraqueza do passado. Cresceu e endureceu. 

Sinto na rapariga o pêndulo na moralidade possível. Não aceita tudo, mas não se põe de parte, está lá. 

A conversa teve tanto mais. O adolescente barulhento estava sentado de costas para mim. Apenas lhe ouvia a voz. Não lhe via os olhos. A realidade humana é tão vasta e tão rica. Cada esplanada dava um tratado. 

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