Wilde, Nietzsche e Pixies




"E se a vida for, como certamente é, um problema para mim, também eu serei decerto um problema para a Vida." Oscar Wilde (in: De Profundis)


Para alguns é isto. Um esforço contínuo de construção que se revela inglório. Tenta-se desenhar a vida, lutar por objectivos, por uns momentos tudo parece andar, apenas para se constatar, mais uma vez, que afinal não. Auto-sabotagem. Falta de força de vontade. Tantos nomes podemos dar, frentes para explicações e julgamentos. Não se faz de propósito, acontece. Vem o ano novo e desejamos diferente. Desejamos. Será? Daremos espaço ao desejo? Teremos a tenacidade de o transformar em acção? Desejo sem acção será desejo? Ou ilusão? O sonho só comanda a vida se acordarmos para a viver. Como se sai do círculo?

"Sofrer é um momento muito prolongado. Não podemos dividi-lo por estações. […] Para nós o tempo não progride. Ele gira. Parece circular em torno de um centro de dor." Oscar Wilde (in: De Profundis)

Girar em torno da dor. Talvez seja preciso, talvez seja essencial retornar e rever e relembrar e re-sentir (não ressentir), para rearrumar, reconstruir. Ninguém consegue explicar muito bem como saiu do sofrimento. Todos dizem - um dia acordei e estava diferente. Não terá sido assim de um dia para o outro, acontece sem se saber como. Mas acontece. A muitos. Pelo caminho foram-se abrindo espaços - de desejo, de sonho, de imaginar diferente. Sair do círculo, do eterno retorno.

«E se um dia ou uma noite um demónio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência (...)". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demónio que te falasses assim?» Nietzsche (in: A Gaia Ciência)

Na força que amaldiçoa o demónio, estará a força de viver novo. De viver de facto. De comandar a vida, naquilo que ela pode ser comandada. 

Li num quadro: "O inferno é o aborrecimento." Olhemos para o céu no seu infinito de possibilidades e desconhecidos. Ao contrário dos Pixies, here is my mind*. Com os pés na terra e o nariz no ar. 



*letra da música: Where is my mind - "With your feet on the air and your head on the ground (...)"

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