A pele dos bebés

Mother and Child de Gustav Klimt

Há algo na pele dos bebés. Todos sabemos que sim. O cheiro, o macio, a suavidade. Os bebés foram feitos para nos dar vontade de dar colo. Principalmente os nossos bebés. Quando somos mães/pais, a pele do nosso bebé é algo que tende a recompensar todas as noites sem dormir. E um dia, acordamos (com o bebé a chorar, claro) e ele/a está coberto de escamas, borbulhinhas, vermelhidão, parece incomodado e tenta coçar-se. O que aconteceu? 

Este não é um texto sobre dermatologia. Os pediatras sabem muito sobre os diagnósticos e os cremes que vão, na grande maioria dos casos, resolver facilmente a situação. Então porquê falar disto? Porque existe uma relação entre a pele e os afectos. 

Na forma mais básica e primária de dar amor, está o contacto pele a pele. A alimentação, a higiene, o controlo do calor e do frio, o acalmar do choro - tudo se passa com e através do contacto físico. O bebé torna-se pessoa, psicologicamente falando, porque vai tomando consciência gradual da sua pele, dos limites do seu corpo, de como é um separado do resto do mundo. E é nesta separação que se torna gente, gente que se relaciona, que se toca, com a pele, com o olhar e com os afectos. 

Quando a pele adoece, parece que há algo que se interpõe nesse contacto, nessa relação. Pode não ser nada de alarmante. Mas também pode ser sinal de que algo mais não vai assim tão bem. 

Há muito que a literatura estabeleceu a relação entre alguns problemas de pele e problemáticas psicológicas. Dou aqui o exemplo de dois estudos que confirmaram essa relação.
Em 1999(1), um estudo abordou esta questão com crianças com menos de 1 ano de idade com e sem dermatite atópica. Constataram que as mães das crianças com, comparando com as mães das crianças sem, se descreviam a si próprias como mais deprimidas e sem esperança, mais ansiosas e super-protectoras e descreviam os seus bebés como mais negativos no seu comportamento emocional. Em 1988(2) um outro estudo tinha investigado sobre os eczemas infantis resistentes aos tratamentos habituais. A pele destas crianças melhorou após ter sido trabalhada a qualidade relacional entre pais e filhos, e depois dos pais terem aceite os seus sentimentos ambíguos. 

Todos quantos têm filhos sabem que a parentalidade não é fácil. E nem sempre é simples perceber quando estamos perante uma dificuldade "normal" ou se a coisa está a começar a ter contornos mais "complicados". Uso as aspas porque não há uma maneira simples e objectiva de pôr uma fronteira entre esses dois mundos. No fundo, quem sabe se precisa de ajuda é o próprio, mais que qualquer profissional (excluindo aqui as psicopatologias graves, naturalmente). 

Conclusão, pele de bebé e bem estar emocional do bebé e dos pais podem estar relacionados. Não é preciso ir a correr para o psicólogo se aparecer uma erupção. Mas pode ser o sinal que faz olhar melhor para dentro e tentar perceber se as coisas vão bem ou não assim tão bem. 



(1) Pauli-Pott U., Darui A. & Beckmann D. (1999) Infants with Atopic Dermatitis: Maternal Hopelessness, Child-Rearing Attitudes and Perceived Infant Temperament. Institute for Medical Psychology, Clinic for Psychosomatic Medicine, University of Giessen, Germany
(2) Koblenzer, C. & Koblenzer, P. (1988). Chronic intractable atopic eczema. in: Jama Dermatology

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