"Não nascemos para ser felizes"


Foi no Colóquio "Psicoterapia em Portugal - realidades e desafios", organizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, que ouvi esta frase: "Nós não nascemos para ser felizes, nascemos para sobreviver". A Dra. Susana Veloso da Associação Portuguesa das Terapias do Comportamento falava de como este tipo de terapias funciona e porque as pessoas o procuram. Não é o tipo de terapia que eu pratico, mas isso agora pouco importa. O que importa é que não nascemos para ser felizes. E nisso concordo com a Dra. Susana Veloso. Então nascemos para quê?

Estas perguntas levam-nos sempre para um de dois caminhos: o das profundezas da filosofia, da religião, da espiritualidade; ou o da simplicidade - nascemos porque os nossos pais quiseram. Será? É inegável que não pedimos para nascer, que quem toma a decisão de trazer uma criança ao mundo é, se tudo correr bem, um par de pessoas que se amam. Portanto, nascemos porque alguém quis. Um par de gente quis-nos, mesmo antes de haver nós. Um par de gente criou uma ideia no seu par de cabeças e passado uns tempos, cá estávamos nós no mundo. Parece um passo de mágica, mas é biologia. Tudo isto explica o porquê, não o para quê.

Será o "para quê" o "sentido da vida"? Não consigo nunca pensar nisto sem me virem à memória os Monty Python. Mas adiante. Para mentes mais ou menos ocupadas, mais ou menos reflexivas, mais ou menos apavoradas ou apenas espantadas por existirem (José Gomes Ferreira aqui é incontornável também), esta questão terá ocupado mais ou menos tempo. Uma criança não pergunta para que existe (embora precise de saber porquê). E todos queremos, queremos tanto, que a nossa existência fosse de facto para sermos felizes. Mas no entanto sofremos. Todos nós, em alguma altura, sentimos dor, dores. E algumas teimam em nos acompanhar vida fora. 

Queremos muito existir para sermos felizes, mas a biologia fez-nos apenas para sobrevivermos, fez-nos para existirmos e para fazermos mais de nós. That's it. O sentido da vida é a própria vida (não sei quem disse isto, mas subscrevo). E se é assim, somos nós que temos de o descobrir e construir, cada um o seu, neste mar de incertezas que a liberdade nos traz. Só sabendo porque somos, podemos descobrir para que somos. Precisamos do ponto de partida sólido, bem construído com amor e visão de futuro. Quando este ponto de partida falha, também o sentido da vida falha. E quando o ponto de partida está lá, mas depois os criadores falham em reconhecer a sua criação, o sentido da vida fica coxo, irreconhecido, e por isso irreconhecível pelo próprio. Amor e reconhecimento - nas ideias sábias de Coimbra de Matos. 

Estas falhas manifestam-se de maneiras diferentes. De forma mais massiva, se não houve um porquê, pode não haver um ser, no sentido verdadeiro da palavra. E então procuramo-nos o tempo todo. O resto da vida. Mas se tivermos sorte, encontramos outras relações que nos podem fazer renascer, ou nascer de facto. Ninguém partirá do zero, será sempre reconstrução. E leva tempo. Tempo. Enquanto a vida passa. Enquanto a vida se faz. Enquanto fazemos da vida o que podemos. Até fazermos dela o que queremos. 

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