Caxias


O que escrevo hoje tem menos a ver com os factos conhecidos, que ainda são poucos para saber a verdadeira história, mas sobre o que vai passando na cabeça das pessoas que assistem a estas notícias. As vozes procuram culpados - a culpa é do Estado que não deu resposta, é da mulher que matou as filhas, é do homem culpado de violência sobre a mulher e abuso sexual da filha de 4 anos. Precisamos de culpas. Alguém comentava algo do género: não entendo estas pessoas que se querem matar e decidem matar os filhos também. Pois, ainda bem para essa pessoa que não entende. Lembra-me aquela cena do filme A Queda, em que a mãe mata os seus filhos para em seguida se suicidar. Não por estar numa situação de violência no presente, mas por a antever no futuro, por não querer viver num mundo em que o III Reich não existisse. 

Mas voltando a Caxias. Sem saber o que de facto aconteceu, volto reforçar, imagino. Imagino uma mulher a viver sob ameaça, em permanente medo, a dizer a si própria que aquilo vai passar, que o marido a ama, que tem problemas mas que a ama, a si e às filhas de ambos, que ele assegura a casa e o dinheiro para viverem, que cuida, embora perca as estribeiras de vez em quando, estará cansado, se calhar a culpa é dela que não faz as coisas como ele quer. Imagino esta mulher a pensar que as coisas irão melhorar, que ela tentará ser melhor e que ele irá ver como ela o ama. Imagino esta mulher crente de que o que vive é amor, que não arranjará outro homem que a ame, a ela que até é deficiente, imagino-a a sentir que até teve muita sorte de encontrar alguém que a quer, que até a quis para mãe das suas crianças. Imagino que esta mulher tentou esconder as dores físicas das pancadas e a dor psicológica permanente de se sentir, bem lá no fundo, como um trapo que não tem direito a nada, um farrapo de gente, nem gente, uma coisa, propriedade dele, com o dever de obedecer, com o medo do que possa acontecer se não o fizer. Imagino o sexo forçado a violentar corpo e alma. E o esforço para esconder tudo das crianças. Imagino-a a imaginar um futuro melhor para as suas filhas, que encontrem um marido melhor, que cuide delas, que nunca, mas nunca tenham de sofrer na cama o que ela sofre, as suas meninas merecem melhor. 

E imagino o terror dilacerante da ideia de que aquele homem que a violenta, mas que foi sempre bom pai, afinal ser um monstro, um monstro que usa o corpo pequenino e frágil da sua menina, para um prazer doente. Imagino esta mulher a sentir um terror tão grande, que contra todas as ameaças pega nas suas filhas e foge. Foge, pede ajuda, faz queixa, mas dentro da sua cabeça a prisão continua. Ele vai encontrá-las, ele vai matá-la, ele vai ficar com as filhas e violentá-las como a violentou a ela, as suas filhas, as suas meninas pequeninas e frágeis, nas mãos de um monstro, o resto das suas vidas, as suas meninas. 

A ideia de que ninguém a poderá ajudar foi alimentada durante 5 anos de relação abusiva, de frases repetidas diariamente, de ameaças e mostras de poder, de devolver uma imagem dela, da mulher impotente, à mercê, incapaz, sem valor. O desespero é algo difícil de explicar porque cai fora das malhas da lógica. Imagino esta mulher a pensar que tudo podia acabar num momento, que se poderia salvar a si e às suas filhas, que por uma vez na vida, poderia controlar o que ia acontecer. Salvação. Deus com certeza vai acolher as meninas inocentes, mesmo que ela vá arder para a eternidade. Mas talvez Deus seja misericordioso e entenda o seu gesto desesperado, talvez ela possa se juntar às filhas na eternidade. Por um momento, parece haver uma saída. Uma única saída. 

Imagino que esta história que aqui imaginei possa ter coincidências com a realidade que não conhecemos. Ou com a realidade interna, mesmo que não coincidente com a externa, de uma mulher gravemente perturbada. 

E paro de imaginar. Porque, independentemente dos contornos dos factos, só um sentimento de enorme desespero pode levar alguém a considerar que a morte é a melhor das soluções. Chocamo-nos com estas histórias. Queremos pormenores, precisamos dar um sentido à coisa, arranjar um culpado. Imagino também um homem tão perturbado que só poderia sobreviver a uma relação íntima se se protegesse agredindo. Mas isso é outra história. Aquela que a maior parte das pessoas se esquece de ver. Se há um culpado, as consciências tranquilizam-se: foi ele. Dedo apontado para fora. Foi ela. Foi outro, não fui eu. Nunca poderia ser eu. Nunca. Nunca?

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