Já pensou em oferecer consultas de psicologia pelo Natal?

A Woman Dragging a Man (Study #1), 1994, de Warren Criswell
http://www.warrencriswell.com/collection-rockysapp.html

Somos tão bons a pensar os problemas dos outros. A começar pelos psicólogos, claro! Mas os outros, os amigos, o familiares, nós todos, olhamos para as vidas dos outros e os problemas parecem-nos claros, as soluções óbvias. Precisas de sair, apanhar ar, precisas de arranjar um(a) namorado(a), esquece lá isso, não penses mais nisso, cuida de ti, alimenta-te, não comas tanto, devias fumar menos... E quando a coisa do outro parece tão má que não dá a volta nem por nada, há quem aconselhe que o outro vá ao psicólogo. Há até quem se ofereça para marcar a primeira consulta, para ir junto, para pagar. As pessoas (ao contrário do que alguns sentem) realmente preocupam-se e querem ajudar.

Já pensou em oferecer consultas de psicologia pelo Natal? Sim? Não o faça.

A decisão de ir a um psicólogo, de iniciar terapia, é uma decisão muito pessoal no sentido da autonomia. Nunca tive uma marcação feita para outra pessoa em que a outra pessoa tenha aparecido (excepção para as crianças trazidas pelos pais, naturalmente). Mesmo com todos os meus avisos, de que deve ser o próprio a ligar e a marcar, algumas pessoas insistem, têm a certeza que a pessoa vem. Não vem. Porque se viesse, se quisesse / conseguisse / pudesse vir, quereria / conseguiria / poderia pegar no telefone para marcar.

Então o que fazemos? Ficamos a ver aquela pessoa atolada no mesmo sofrimento? 

Perante a impotência por vezes reagimos com afastamento. Sentimos que não conseguimos ajudar e pesa-nos, sofremos também. Ou zangamo-nos com a pessoa, decidimos que ela(e) está assim porque quer, não faz nada para mudar. É fácil apontar o dedo para fora quando sentimos que não temos mais nada a fazer.

Mas temos.

Não é milagroso, não vai "resolver" a coisa, não nos vai fazer sentir heróis, não vai ser um momento no tempo. Mas podemos estar. Estar com a pessoa, ouvi-la, combater a tentação de lhe dizer o que fazer, só ouvir, ir buscar as partes de nós que conseguem entender um pouco do que o outro está a passar porque passou por coisas parecidas. Não vale a pena encharcar a pessoa com todas as histórias parecidas que ouvimos (a Antónia que foi àquele médico e ficou boa, o Manuel que começou a meditar e mudou a vida). Mas podemos conversar, sem impor, sem insistir (vou-te buscar a casa e vais sair quer queiras quer não), mostrar disponibilidade, oferecer amor. Amor no sentido lato - amor de amigo, de mãe/pai, de filho(a), de companheiro(a). 

Não temos de compreender tudo, não temos de ter soluções. O que nos salva é a humanidade. Sejamos humanos, activamente humanos. 

E quando a pessoa disser que começou a pensar em ir a um psicólogo, podemos congratulá-la por ter começado a melhorar.

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