Natal incorrecto

Foto de http://www.galenoalvarenga.com.br/artigos/por-um-natal-diferente


Ai... que vou ser tão politicamente incorrecta... Mas há coisas que às vezes é preciso dizer. E ouvir. 

Portanto, é Natal. Tempo de comemorar a família e a comunhão (com ou sem religião). É também tempo de lembrar os avós que morreram, os Natais mágicos da infância, aquilo que se perdeu. E quem goza de boa saúde lembra o passado mas comemora o presente. Porque o presente está cheio, pleno, num papel diferente mas mantendo a magia do Natal para as crianças de agora, ou para os adultos, mas sempre para e com alguém. Juntos. Então porque tanta gente se sente só nesta altura? Em tempo de celebrar a paz, de sermos caridosos, de pensarmos em quem tem menos, muito menos, tão menos... alguns de nós sentimo-nos vazios. Separados. Isolados. Tristes. Uma tristeza difícil de explicar, quando toda a gente, mesmo o mais desconhecido dos desconhecidos na rua, é capaz de nos desejar boas festas e bom ano e paz e amor e essas coisas todas tão boas e tão irritantemente longínquas de quem deprime no mês de Dezembro. 

Qual é a parte politicamente incorrecta? É que não é (só) a vida que nos prega partidas. Não é o destino que nos afasta a família, que nos leva os filhos para longe onde as ocupações são sempre muitas, que nos afasta os primos que eram tão grandes nas nossas vidas de gente pequena, que nos impossibilita aquele abraço que queremos (será que o dizemos?). Não é o destino que nos põe na cara aqueles óculos que nos faz ver toda a gente feliz e tão tão bem acompanhada nas festas que nos faz sentir ainda mais só. Não é o destino que nos faz viver o tempo que sabemos que devia ser de amor, com conflitos atados cá dentro, com quezílias arrastadas há tempos, com aquela pesada ausência de prazer, com risos mais de fora que de dentro. Será tudo isto apenas e só a infância perdida? O nunca mais voltar àquela sensação mágica de que tudo podia estar bem no universo só porque a árvore de Natal se iluminava e alguém (algum pai) iria presentear-nos com coisas boas (mimos embrulhados com laços) e a comidinha ia reconfortar o dentro? Não é a vida que nos põe tristes. Somos nós. Pronto, era isto. 

Vamos então ao mas. Nada é absoluto. Claro que somos produto da vida e do mundo. Mas aqueles que se vêem sós fizeram por isso. A maioria não o fez voluntariamente, provavelmente não poderia ter feito diferente. Porque enfrentou só todos os dramas que por fim o deixaram realmente só. Muito do que nos acontece é produto das nossas acções. Muito do que vemos vem das escolhas que fazemos sobre para onde olhar. Temos nas nossas mãos formas de encontrar o prazer de viver, a tal comunhão que celebramos no Natal, seja com a família de sangue, a família adoptada, os amigos, quem for que escolhamos para serem as nossas pessoas. Mas nem sempre conseguimos mudar o que nos impede. Não conseguimos sozinhos. Há coisas que não mudamos sozinhos. 

O psicoterapeuta não irá juntar-se a nós na noite de Natal. Mas irá ajudar-nos a olhar para os sítios que podem fazer a diferença na nossa vida. Será desta que resolvemos tentar?

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