A cama dos pais - parte III (e última)

Henri de Toulouse-Lautrec "Le Lit"


Nos dois primeiros textos falei do período de vida até aos 6 meses. O que acontece depois desta fase? Até aqui os autores referem-se maioritariamente a uma relação entre mãe (ou quem faz o seu papel) e bebé. Mas todos sabemos como a existência de um pai é saudável e organizadora para as crianças. É a partir dos 6 meses, quando o bebé já está apto a de facto se relacionar com os outros e o mundo, que o foco passa a estar na tríade - no 3. 

Portanto, o bebé passou da fase de dependência absoluta para a fase de dependência relativa (Winnicott). Ele comunica as suas necessidades à mãe para que esta as venha satisfazer. Sente a ausência, sente o desejo, "chama", e a mãe responde. É quando estes mecanismos estão bem estabelecidos que o bebé está pronto para lidar com aquilo a que na psicanálise se chama a triangulação.

O triângulo é constituído por mãe, pai e filho. E é a partir desta tríade que o bebé começa a organizar a noção de que existe algo entre mãe e pai de que ele não faz parte. Nasce uma espécie de ciúme saudável. O bebé quer a mãe só para si, e o pai mete-se no meio. Tanto mãe como pai servem de base segura, mas a relação entre os dois dá o espaço necessário ao aumento gradual da autonomia da criança. A aquisição da marcha, à volta do 1 ano de idade, aumenta esta capacidade de autonomia, de explorar o ambiente, de ir para longe e regressar à segurança dos pais. Com o deixar as fraldas, entre os 2 e os 3 anos, a criança avança mais um passo na autonomia e no controlo do seu próprio corpo. É também a fase em que a criança quer controlar o que se passa à volta, que diz "não" muitas vezes, que desobedece. Com o avançar da idade, a criança vai "aprender" a querer ser grande para ter um homem / mulher como a mãe / o pai têm. (A teoria psicanalítica fala de como a homossexualidade é uma organização que se forma numa fase precoce da vida.) Para ser capaz de fantasiar inconscientemente sobre o que se passa entre a mãe e o pai, a criança precisa de não estar exposta a uma proximidade que pode ser excessiva e perturbadora. Ou seja, que pode criar defesas que impedem a vivência saudável destes conflitos inconscientes.

Todas estas fases, como vimos nas descrições mais detalhadas dos primeiros seis meses, são construídas e bem sucedidas com base na capacidade dos pais fornecerem um bom equilíbrio entre segurança e espaço para autonomização - presença e ausência, dar e não dar, satisfazer e frustrar. Sem um dos pólos, instala-se a doença mental.

Quando chega aos 6 anos (coincidente com a entrada na aprendizagem formal do 1º ano), a criança saudável conseguiu "arrumar" todos os conflitos anteriores, conseguiu transformar os sentimentos mais inconscientes em actividade simbólica (na brincadeira, nas histórias...), e está pronta para desenvolver a sua capacidade intelectual. É muito curioso como, séculos antes sequer da psicanálise existir, já os Jesuítas iniciavam as crianças nas aprendizagens aos 7 anos de idade. 

Tendo apresentado este apanhado de informação sobre o desenvolvimento emocional na infância, é importante acrescentar que as crianças não são máquinas numa linha de montagem - os desvios da "norma" não são sempre causa de doença ou desequilíbrio. As crianças são todas diferentes, e os pais esforçam-se para se adaptar e serem os melhores pais que conseguem, dentro da realidade que têm. As famílias também não são todas iguais, e uma família "diferente" pode ser tão saudável como uma família "tradicional", pois todos os processos de que falámos são maleáveis e plásticos. 

Como disse ao início, não pretendo que estes textos sejam uma receita de como fazer. Pretendia fornecer informação, que é necessariamente complexa, mas que possa ajudar a entender os porquês de alguns conselhos sobre o espaço de dormir. O adormecer é um momento importante para a criança - é o momento em que ela larga o controlo, em que tem de se sentir segura para lidar com os "monstros debaixo da cama", em que se entrega aos sonhos. 

O movimento de co-sleeping baseia-se na premissa de que uma base afectiva que se materializa (entre outras coisas) no acto da família partilhar a cama, não tem de ser um entrave ao desenvolvimento saudável da autonomia, pois esta é estimulada noutras alturas do dia. Pode funcionar. Os pais que optam por ter quarto para si e quarto para os filhos falam nas vantagens que isso traz a todos em termos de terem o seu próprio espaço. A maioria dos casais não é tão fundamentalista que não quebre estas regras de vez em quando - no co-sleeping os pais habitualmente deixam os filhos dormir nas suas camas quando eles querem; muitos pais que têm os filhos noutros quartos, gostam do mimo na cama ao fim de semana de manhã, por exemplo, ou deixam a criança ir para a cama do casal se está doente ou teve um pesadelo. O que é importante é estar atento às circunstâncias em que tudo se passa. Por exemplo, um casal que se divorcia, o pai muda de casa, e a mãe passa a dormir na cama com o seu filho rapaz, vai, muito provavelmente, criar a fantasia na cabeça da criança de que tomou o lugar do pai. E por muito que a criança "queira" este lugar privilegiado, as consequências desta confusão de papéis podem ser preocupantes para a saúde mental da criança. 

Concluindo, pode haver argumentos para defender quase qualquer prática. O importante é as pessoas poderem ter alguma informação que ajude a perceber o que está na base das opiniões dos técnicos e que tomem as suas próprias decisões de acordo com o que sentem ser melhor para a sua família.

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