"A rapariga que quer morrer"



http://psi-norte.blogspot.pt/2015/07/a-rapariga-que-quer-morrer.html"


"Laura" é uma jovem belga, de 24 anos, que sofre de depressão, e que é acompanhada por um psiquiatra há cerca de 3 anos. Desde a infância que diz ter pensamentos suicidas. Neste sentido, o psiquiatra que a acompanha sugeriu que Laura recorresse à eutanásia, o que terá sido aceite pela jovem."

Fiquei em choque. O resto do artigo questiona, e bem, a linha de trabalho deste psiquiatra. Mas de repente... 

Laura sofre de depressão profunda e pensa em matar-se desde criança. Depressão profunda. A maioria das pessoas, felizmente, não faz ideia do que isto realmente quer dizer. Depressão profunda significa um sofrimento profundo, permanente, sem tréguas. Uma falta de sentido para a vida que soterra qualquer movimento, seja ele físico ou mental, com um peso colossal. 

O meu repente virou esta história ao contrário na minha cabeça - então se cada pessoa tem o direito a escolher viver ou morrer, se uma pessoa em sofrimento profundo e permanente pode, em alguns países, escolher morrer, será que não faz sentido pensar em eutanásia para terminar com o sofrimento mental? Será que apenas nos chocamos com esta ideia porque, enquanto sociedade, ainda não reconhecemos o sofrimento mental como tão grave como o físico e, enquanto indivíduos, não conseguimos imaginar tal dimensão do sofrimento mental? 

Talvez apenas por teimosia optimista, recuso esta ideia. A eutanásia fará sentido quando a situação não tem objectivamente possibilidade de melhorar. A depressão traz desesperança a quem sofre dela, faz parte do quadro. Mas deverá trazer a quem tenta tratá-la? Entender e empatizar com o sofrimento do paciente deverá ir assim tão longe? A minha teimosia optimista diz que não, diz que alguém tem de ter a saúde mental, o discernimento, a visão de futuro, que o deprimido severo não tem. Para lhe emprestar, enquanto ele não o consegue ter por si. Alguém tem de ter o amor que o deprimido severo não tem por si próprio, alguém tem de servir de espelho não distorcido pela visão de auto-catástrofe. 

Recusar a ideia de eutanásia para o sofrimento mental pode ser apenas uma convicção que me é útil enquanto psicóloga que precisa da esperança nos resultados do seu trabalho. Que seja. Que me sirva. E que sirva quem eu tento ajudar.

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