Crianças bem-educadas




" (...) os pacientes não reagiram a um trauma psíquico porque a natureza do trauma não comportava reação, como no caso da perda obviamente irreparável de um ente querido, ou porque as circunstâncias sociais impossibilitavam uma reação, ou porque se tratava de coisas que o paciente desejava esquecer, e portanto, recalcara intencionalmente do pensamento consciente, inibindo-as e suprimindo-as. São precisamente as coisas aflitivas dessa natureza que, sob hipnose, constatamos serem a base dos fenômenos histéricos (por exemplo, os delírios histéricos de santos e freiras, de mulheres que guardam a castidade e de crianças bem-educadas)."

Freud e Breuer. (1893). Sobre o mecanismo psíquico dos fenómenos histéricos: comunicação preliminar. 


E lembrei-me do Filipe. Menino de 7 anos que avaliei há anos numa escola da Amadora. Filipe era filho de um pai toxicodependente e a mãe tinha-os deixado quando ele ainda não tinha 2 anos de idade, altura em que ele passou a viver com os avós paternos. Lembrei-me porque a avó o descrevia como um menino sossegado, como também o pai tinha sido. O ambiente familiar era descrito como tranquilo, o pai tinha feito uma cura e já não recorria às drogas, todos na família ajudavam o Filipe. A avó achava-o esperto, só "está atrasado nas letras". Na realidade, o Filipe estava na escola ao abrigo da educação especial, não tinha aprendido a ler e a escrever no 1º ano, no seu Programa Educativo era referido "distúrbio emocional, imaturidade/desadaptação e dificuldades específicas da aprendizagem". O Filipe, menino bem educado, não mostrou sentir falta da mãe quando se separou dela (pela descrição da avó). Obviamente que o Filipe não tinha uma histeria freudiana. Mas este caso de "criança bem-educada" fez-me pensar em como ainda se ouve de tantos adultos coisas como - 'era muito pequeno, não deu conta de nada'. Freud fala das memórias de eventos traumáticos que, ao serem reprimidas, se mantêm intactas a um nível inconsciente e continuam, ou voltam, a afectar a pessoa, quando o estímulo que as provocou já não se encontra presente. Crianças muito pequenas sujeitas a situações como o afastamento de uma figura de referência, não têm ainda maturidade para fazer aquilo a que Freud chama de "ab-reacção" - em termos leigos, reagir e arrumar o assunto. Filipe, com 20 meses de idade, não tinha como entender e sentir conscientemente a perda, elaborá-la, assimilá-la como parte da sua experiência passada e repará-la. Embora falasse da mãe e da avó, no desenho da família apenas representa os homens - pai, avô e tio. Filipe não podia aprender, não podia pensar, porque não se podia deixar sentir. Quando a nossa ansiedade de adultos quer pôr à força uma tampa sobre os sentimentos complicados das crianças, quando só lhes dizemos para não chorarem, quando achamos que eles não dão conta de nada, quando tomamos por verdade profunda os mecanismos de defesa superficiais, e nos descansamos que afinal não foi assim tão mau para eles, estamos a contribuir para isto mesmo - crianças que não podem sentir e por isso deixam de poder pensar.

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