Repetição


A doença é a repetição. Não a rotina tranquilizadora. A repetição do que nos prende e faz mal. Saber o resultado e não conseguir mudar. Ficar em esquemas de funcionamento conhecidos, familiares, que eventualmente servem algum propósito muitas vezes inconsciente, necessário, mas também maléfico.

Algumas destas situações são visíveis aos olhos dos outros e do próprio.

O pai da Antónia era violento com a mãe. Antónia junta-se com um homem abusivo.

O Fernando continua a juntar-se com companheiras que acabam por ficar dependentes dele para tudo e quando isso acontece ele perde o interesse.

A Joana mantém o mesmo emprego que odeia, diz que não tem mais hipóteses, não procura ofertas de emprego, queixa-se do trabalho o tempo todo.

O Francisco já tentou entrar naquele curso duas vezes. Quer mesmo fazer aquele curso, mas no tempo em que devia estar a estudar para os exames, tem sempre muito que fazer. Desta vez será diferente?

No dia mundial da saúde mental, há que lembrar isto: a repetição. Aquela que, mesmo quando consciente, não se consegue mudar. Aquela que não se consegue explicar. 

Mudar custa, é difícil, assusta. Mudar é sair do que conhecemos para algo novo que, mesmo antecipando que será melhor, é o não eu de agora. 

No dia mundial da saúde mental há que lembrar isto: doença mental não é um palavrão apenas para aqueles internados em hospitais psiquiátricos, é algo que nos ataca a todos, a uns temporariamente, a outros de forma mais persistente. Nestes casos é preciso ajuda. Para não ficarmos presos na nossa própria  repetição (des)confortável. 

A saúde mental dá liberdade para escolher o que queremos e não queremos, para concretizar, para viver o agora, lutar pelos nossos objectivos em vez de lutar com nós próprios ou outros próximos.



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